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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

 

Antes me afligia o não haver cidade, esquina com esquina, o ângulo reto dos caminhos. Agora onde lanço o olhar só quero ver o mato. Nada de relva, canteiros, ajardinados. Só quero é o arbusto espontâneo, a moita silvestre, a árvore que ninguém semeou, o chão que ninguém pode sujar nem pilhar.

In Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

Mia Couto (2002)

segunda-feira, 18 de março de 2019

Mia Couto

...E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

in Jerusalém 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Espiral

 Architectonica perspectiva. (Linné, 1758).


ESPIRAL

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.
Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.
Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

MIA COUTO
Do livro “Tradutor de Chuvas”
Ed. Caminho

sábado, 1 de julho de 2006

Mia Couto 2

"A minha infância ainda está a acontecer. Para mim não é só um tempo, é a capacidade que temos de nos espantar e de sermos encantados, e , nesse aspecto, ainda vivo em estado de infância. Tudo me fascina. Sou muito ingénuo. Sou quase um rural visitando pela primeira vez uma cidade. Mas quero manter isso, apesar de saber que não é muito prático. A única maneira que tenho de ser feliz é ter esta sensação de estranhamento. Como se estivesse a olhar pela primeira vez as coisas. Essa é a minha receita para ser feliz."

Mia Couto à Revista Cara

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Os setes sapatos sujos

Segundo Mia Couto, 
A opinião de: Mia Couto
Oração de Sapiência na abertura do ano lectivo no ISCTEM
[...]Existem, no entanto, várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos.
Falo da dificuldade de nós pensarmos como sujeitos históricos, como lugar
de partida e como destino de um sonho. [...]
[...]Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos[...]
O primeiro sapato: a ideia que os culpados são sempre os outros e nós
somos sempre vítimas[...]
Segundo sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho[...]
Terceiro sapato- O preconceito de quem critica é um inimigo[...]
Quarto sapato: a ideia que mudar as palavras muda a realidade[...]
Quinto sapato A vergonha de ser pobre e o culto das aparências[...]
Sexto Sapato A passividade perante a injustiça[...]
Sétimo sapato - A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os
outros[...]

(Extraído do Vertical N° 781, 782 e 783 de Março 2005)