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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Foi para ti que criei as rosas



Foi para ti que criei as rosas
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

Eugénio de Andrade,
As mãos e os frutos -1948

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Sempre a água

Sempre a água me cantou nas telhas.
Habito onde as suas bicas,
As bocas jorram.
As palavras que no cântaro
A noite recolhe e bebe
Com agrado
Sabem a terra por serem minhas.
Não sou daqui e não vos devo
Nada, ninguém
Poderá negar a evidência
De ser chama ou água,
Fluir em lugar de ser pedra.
Perdoai-me a transparência.


Eugéniode Andrade in Sal da Língua precedido de trinta poemas

terça-feira, 14 de junho de 2005

Eugénio de Andrade

Quase Nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")