sexta-feira, 17 de março de 2017

Violetas

 Viola Canina L.
 
A VIOLETA MAIS BELA QUE AMANHECE
Soneto CXIX

A violeta mais bela que amanhece
No vale, por esmalte da verdura,
Com seu pálido lustre e formosura,
Por mais bela, Violante, te obedece.

Perguntas-me por quê? Porque aparece
Em ti seu nome, e sua cor mais pura;
E estudar em teu rosto só procura
Tudo quanto em beldade mais floresce.

Oh luminosa flor! Oh sol mais claro!
Único roubador de meu sentido,
Não permitas que Amor me seja avaro.

Oh penetrante seta de Cupido!
Que queres? Que te peça, por reparo,
Ser, neste vale, Enéias desta Dido?
 LUIZ VAZ DE CAMÕES
In Obras de Luíz de Camões (Vol. II), 1861
Pelo Visconde de Juromenha

NOTA:
1. ortografia atualizada

quarta-feira, 15 de março de 2017

terça-feira, 14 de março de 2017

Papoila (s)


A nossa papoila comum ou papoula (Papaver rhoeas L.) insiste em cada ano antecipar-se à data de floração, estipulada nos antigos livros, devia florir entre Abril – Maio.
Na literatura aparece com outros nomes, como papoila-das-searas, papoila-dos-cereais, papoila-ordinária, papoila-vermelha, papoila-vermelha-dos-campos.
Além dela outras papoilas são referenciadas, na literatura portuguesa e brasileira, como tal, embora algumas sem parentesco próximo, comum.
papoila-da-califórnia – globo de sol  - Eschscholtzia californica,Cham.
papoila-das-praias – papoila-pontuda -glaucia, Glaucium flavum
papoila-de duas-cores – rosa-louca, Hibiscus mutabilis
papoila-de-espinho – papoila-do-méxico -papoila-espinhosa - cardo-santo, Argemone mexicana.
papoila-de-holanda – dormideira-dos-jardins, Papaver nigrum.
papoila-do-são-francisco – cânhamo-brasileiro, Hibiscus cannabinus.
papoila pelada – Papaver somniferum.

(fonte Dicionário Houaiss).

segunda-feira, 13 de março de 2017

Os poetas hipocritas



Frios hipócritas, não faleis dos deuses!
Vós sois tão razoáveis! não acreditais em Hélios,
Nem no Tonante e no Deus do Mar;
A Terra está morta, quem quer agradecer-lhe? ─

Confiança, Deuses! pois ornais a canção,
Inda que dos vossos nomes a alma já se foi,
E quando é precisa uma grande palavra,
Mãe Natureza! é em ti que se pensa.


Poemas, de Hölderlin, trad. Paulo Quintela, Relógio d’Água, 1991

sábado, 11 de março de 2017

Tubo de ensaio

Sintra 2016

Árvores do Canadá, uma por uma,
A caminho de Otawa, de autocarro,
Propõem seus galhos hibernais ainda
À minha angústia já primaveril.
Com tão pouca matéria a fotossíntese,
Que oxigénio de amor espero eu delas,
Com que carbono as poderei amar?
Porque, enfim, eu morrendo dou-me aos bosques,
A tal selva de Dante é a dor da espécie,
E o mezzo dei camin aqui passar.
Só é estranho que fracos pensamentos
Eu verta nestes tubos de ensaiar:
Eu, que, por causa de Escherichia Coli,
Quase não sei (como se diz?) — meiar...
A Poesia é um louco laboratório,
E eu dispo a bata para não chorar.


(Os 3 últimos poemas in Poesias de Vitorino Nemésio, por Maria Madalena Gonçalves. Lisboa: Comunicação, 1983.)