segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Gramínea - Quando os campos ainda não estavam secos


Barragem da Mula (Sintra)

A maior, arriscando uma classificação é a Hordeum murinum L., com o nome vulgar Cevada das lebres, cevada dos ratos, Erva da espiga.
A mais pequena Briza maxima L. (ou media, ou minor??) com o nome vulgar de Abelhinhas, Bule-Bule, Camainhas do diabo.
Do site do herbário da Universidade de Coimbra podemos ler:
A morfologia típica de uma gramínea é muito semelhante em todas as espécies: um caule geralmente oco, com nós engrossados, no qual se inserem as folhas com uma forma tendencialmente linear, e de nervação paralela (em todas as espécies portuguesas). Estas folhas têm uma morfologia muito típica: a parte proximal forma uma bainha que envolve parte do caule, a qual termina no limbo foliar. Na articulação entre estas duas partes existe um prolongamento – a lígula – em forma de membrana ou de uma fiada de pêlos.
Porém, a característica mais marcante desta família reside na morfologia da flor. Esta é um exemplo de redução floral fantástico. Entenda-se por “redução”, o processo evolutivo que conduz à perda de estruturas que, outrora funcionais, terão perdido a sua função e, como tal, razão de existir.
A sua aparente simplicidade estrutural fez com que se tenham considerado as gramíneas como plantas primitivas. Essa ideia está, contudo, ultrapassada.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Nem todo o mato é orégãos.


Assumia esta frase como um provérbio popular, até esta descoberta:
Quinta-feira, 10 de Julho de 1880 ,  Diário de Notícias,
Detalhe curioso, na edição de 10, o Diário de Notícias publica uma carta do poeta (Luis de Camões) – ele mesmo – em que este se lamenta de não ter notícias “d’essa terra” e escreve:

“d’ante mão vos pago com novas d’esta, que não serão más no fundo de uma arca para aviso de alguns aventureiros que cuidam que todo o mato é orégãos e não sabem que cá e lá más fadas ha.”

Texto de Abel Coelho de Morais, DN, As festas do tricentenário da morte de Camões - 16/10/2014

A fotografia é a espécie que classifico como Origanum vulgare, a fotografia do post anterio seria O. Virens ou a subespécie aí referida. Esclarecimentos são bem vindos.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Está na hora de os apanhar


Está na altura de apanhar os orégãos, mais uns dias de sol forte e começam a ficar queimados, as sépalas a passar do verde-claro para castanho e perde-se uma grande parte do aroma. 

O termo Origanum vem dos gregos, de oros e ganos, que significa a alegria das montanhas.

Existem duas espécies que se distinguem pelo habitat em que vivem
O Origanum. virens  ( ou Origanum vulgare L. subsp. virens (Hoffmanns. & Link) Bonnier & Layens)  cresce em sítios secos e áridos, margens de campos cultivados e sebes. A flor é sempre branca. Classifico este como sendo o que é espontâneo em Portugal.


O Origanum vulgare cresce em sítios frescos, margens de ribeiros e de campos cultivados. Normalmente é a espécie que é comercializada podendo a flor ser branca, vermelho purpurascente e rosada, ou matizes entre estes tons. As plantas do O. Vulgare podem apresentar acentuada variabilidade morfológica, sobretudo na inflorescência, devido à origem diversa das plantas adquiridas no comércio. Existem também já vários cultivares (1) desta espécie,
clinkle leaf- folhas douradas e encaracoladas e aromáticas,
variegatum – folhas verdes levemente aromáticas e manchadas de dourado,
aureum – folhas ligeiramente aromáticas, que se enrugam à luz directa do sol, ~
compact  pink flowered – folhas verdes escuras de aroma forte e penetrante, fascículos compactos, cor de rosa escuros.

A composição química de cada uma das espécies é muito próxima e parece não depender tanto da variedade em si, mas sim da constituição do solo em que crescem.
Será talvez um dos melhores anti-sépticos naturais conhecidos, devido ao elevado teor em timol e carvacrol (em seco). Utiliza-se como expetorante, no tratamento de problemas respiratórios, como asma ou bronquite. Em infusão pode combater a tosse, dores de cabeça de origem nervosa e irritabilidade, tendo também propriedades antiespamódicas e digestivas.(2)


A sua aplicação como erva aromática é variada, a começar pelo gaspacho Alentejano a acabar nas pizzas em Itália… mas demos a voz ao Pantagruel (3):
[…] Empregado em demasia, é áspero, quase contundente, mas, na devida conta, empresta um arejado e um simpático sabor a campo a tudo em que colabora. Em peixes cozidos – no último instante, à saída do lume – põe o toque mágico exacto. Em marinadas e vinha-d’alhos, sobe muitos pontos por conta própria. No molho de tomate, se não houver manjericão, é imprescindível. Em certas mocelas, consegue prodígios. Uma leve pitada em mariscos ou em cabrito para assar revela supressas escondidas. […]
(1)    Guia Prático das Plantas aromáticas – Lesley Bremness – Circulo dos Leitores -1993  
(2)  Natureza Gastronomia e Lazer – Plantas silvestres alimentares e ervas aromáticas condimentares - Maria Manuel Varagão (coord.) – Edições colibri.
(3) O Livro do Pantagruel – Bertha Rosa  Limpo, Jorge Brum Canto, Maria Manuela Limpo Caetano, 56ª edição,

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A baga do corvo




A camarinha, já aqui falada, (Corema album (L.) Don) em língua inglesa crowberry, que numa tradução livre, significa a baga do corvo, sendo um endismo (só existe aqui) da península Ibérica reforçam como The portuguese crowberry, a baga do corvo português.

A discussão sobre a comercialização deste pequeno fruto começou, e a proposta de um nome com maior impacto no marketing já foi sugerido, Beachberry (1), a baga da praia.
O interesse pela sua composição já chegou aos meios científicos,  em termos genéricos  tem a mesma composição que os frutos vermelhos mas em menor percentagem da maioria dos constituintes (2).
Realce para os anti oxidantes que no modelo de protecção da doença de Parkinson,  tem um efeito superior ao Ginkgo biloba (3).
Mas o mais importante é que elas aí estão, prontas para qualquer dia serem apanhadas.
Da última vez fizemos referência a uma  uma canção popular, hoje falamos da lenda.
 Reza a lenda que as camarinhas vêm das lágrimas da Rainha Santa Isabel.
D Dinis foi sem dúvida um bom rei, um lendário poeta, no entanto, como marido apesar de bondoso, não era muito dado a fidelidade, algo que fazia sofrer muito a Rainha D. Isabel.
Nos Paços, onde tudo se sabia, cedo chegou-lhe aos ouvidos mais um caso amoroso do Rei inconstante. Roída pelos ciúmes a Rainha pôs-se a cavalo para tentar encontrar o marido. Ao chegar perto de um rochedo entre o Pinha e o mar, lá encontrou o Rei com sua nova amada. De coração destroçado, os belos olhos da Rainha encheram-se lágrimas e chorou tanto que cobriu toda a vegetação ao redor de pequenas gotas.
E assim nasceu a Lenda das Camarinhas, no final do verão aqueles pequenos arbustos cobrem-se de pequenos bagos brancos e agridoce em homenagem as lágrimas da Rainha Santa.

(Em alguns locais de Portugal dá-se o nome de camarinha ao granizo)

Lenda das Camarinhas (autor desconhecido)

Dizem que Santa Isabel
Rainha de Portugal
Montando branco corcel
Percorria o seu pinhal!

-“Ai do meu Esposo! Dizei!
Dizei-me, robles reais!
Meu Dinis! Senhor meu Rei!
Em que braços suspirais?!...

Os robles silenciosos
Do vasto Pinhal do Rei
Responderam receosos
– não sei!...

E o pranto da Rainha
Nas suas faces rolava,
Regando a erva daninha
No pobre chão que pisava!

– “ ó meu Pinhal sonhador
Que o meu Rei semeou!
Dizei-me do meu Amor
E se por aqui passou...”

Os robles silenciosos
Do vasto Pinhal do Rei
Responderam receosos:
– Não sei !..

Mas cristalizou-se o pranto
Em muitas bagas branquinhas
E transformou-se num manto
De brilhantes camarinhas!...

Eis que repara a Rainha
Numa casa iluminada...
– “ Quem vela nesta casinha
Numa hora adiantada ?!...”

Os robles silenciosos
Tão tristes  que nem eu sei,
Responderam receosos:
– O Rei!...

(1)    P. b. Oliveira and Adam Dale, Jounal of Berry Research 2 (2012) 123-133
(2)    A. J. Léon –González et al, Journal os Food composition and Analysis 29 (2013) 58-63
(3)    Macedo DLC, Master Thesis, Universidade de Lisboa, 2010