terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Goethe

Fotografia Ribeira da Cova da Moura

Canto dos Espíritos sobre as Águas

A alma do homem
É como a água:
Do céu vem,
Ao céu sobe,
E de novo tem
Que descer à terra,
Em mudança eterna.

Corre do alto
Rochedo a pino
O veio puro,
Então em belo
Pó de ondas de névoa
Desce à rocha liza,
E acolhido de manso
Vai, tudo velando,
Em baixo murmúrio,
Lá para as profundas.

Erguem-se penhascos
De encontro à queda,
— Vai, 'spúmando em raiva,
Degrau em degrau
Para o abismo.

No leito baixo
Desliza ao longo do vale relvado,
E no lago manso
Pascem seu rosto
Os astros todos.

Vento é da vaga
O belo amante;
Vento mistura do fundo ao cimo
Ondas 'spumantes.

Alma do Homem,
És bem como a água!
Destino do homem,
És bem como o vento!

Johann Wolfgang von Goethe, in "Poemas"
Tradução de Paulo Quintela


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A bananeira



Invernos amenos, exposta ao sul, protegida do vento norte, a bananeira rejubila.
Regada no verão, e este mais húmido que o normal, concluindo com as chuvas de Inverno, e esperando que não apareçam ainda geadas até os frutos engordarem mais um pouco para nos permitir saboreá-las.

Noutras latitudes  e noutros tempos:

A Bananeira



Humilde, em meio à flora, a bananeira,

Sozinha, transplantada em terra boa,

Vive ocultando à Natureza inteira

O seu destino de morrer à toa.



E parece feliz, bebendo as águas

Do céu, para o consolo das raízes,

Como se viessem transformar-lhe as mágoas

Nos encantos das árvores felizes.



O sol enche-lhe as palmas de pepitas

De ouro, na exaltação do amor violento,

E ela paneja suas largas fitas,

As folhas verdes balançando ao vento…



Outras vezes, a chuva, como um véu

Desatado de nuvem passageira,

Cai das vitrinas rútilas do céu

Para vestir de noiva a bananeira.



Noiva, mas noiva-mãe, toda pureza,

Pois sem amor, sem mácula e empecilhos,

Faz rebentar à luz da Natureza,

Na terra, em torno, a vida de seus filhos.



Pende-lhe, em breve, o cacho, de ouro ou prata,

Dos frutos bons… Depois, a golpes brutos,

A bananeira cai em terra ingrata,

Pela desdita de ter dado frutos.



Sabino de Campos (1893 -?, Amargosa, BA, Brasil)

domingo, 10 de janeiro de 2016

Modo de citação




Nunca tinha compreendido que a possibilidade de nos concebermos a nós próprios como uma coisa una e ordenada, como um ser humano, depende da existência de uma probabilidade de futuro.

O próprio sentido do eu assenta no facto de ele poder existir no dia seguinte também (pag. 96).

Neste romance Lars Gustafsson utiliza um processo muito simples e muitas vezes explorado, que consiste em aproveitar apontamentos particulares encontrados depois da morte do personagem e publicados por ordem aproximada (na introdução do livro por Carl:Gustav Bjurstrom).
(Fotografias em Cascais)


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O que ando a ler

O Tratado da Árvore revelou-se um livro para outros dias, isto é, para uma maior disponibilidade mental.
Robert Dumas pretende fazer da árvore um tema filosófico e construir a partir dele o seu sistema.
Assim vagueei por Ferreira de Castro, que continuo a achar fascinante e encontrei na estante um livro que tenho comigo desde o século passado e com o aparecimento nas livrarias de uma nova edição nas livrarias, dei por mim a pensar que nunca o tinha chegado a ler.

Só um paragrafo para abrir o apetite a futuros leitores:



[...] É curioso. Já quase não tenho a sensação de ter uma alma. Sinto-me perfeitamente límpido, tranquilo e vazio por dentro. Há as vozes dos pássaros e há a luz vermelha sobre aquele órgão de rocha e há o sabor amargo, forte e puro do café sem açúcar. Mas não há amarguras, nem recordações, nem angústias. Estou suspenso num giroscópio. Vazio, puro e limpo.

Talvez tenha finalmente conseguido. Talvez me tenha libertado, contando [...]


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Perpétua das areias (erva caril) (2).



Helichrysum italicum ((Rth.) Don. (Asteraceae) é um ícone na flora do Mediterrâneo.
O uso dos seus óleos essenciais em glamorosos perfumes e produtos de beleza tornou esta planta num ícone do luxo e da moda.
A distribuição do H. italicum estende-se por todo o Mediterrâneo, as suas propriedades nõ se limitam às fragrâncias que produz e podem beneficiar também a saúde humana.
Neste contexto H. Italicum pode ser visto como um gigante adormecido da medicina tradicional (“herbal”, no original) do Mediterrâneo e os seus extractos têm o potencial de serem desenvolvidos como ingredientes de suplementos diatéticos tal como os seus óleos essenciais têm sido usados com sucesso na perfumaria e na aromaterapia.
Acordar este gigante não será simples, mas os estudos recentes têm fornecido as bases para o renascimento do Helichrysum.
O artigo que aqui traduzo de forma livre do inglês, apresenta a fascinante faceta etnobotânica do H. italicum sob a luz da moderna investigação molecular dos seus constituintes, dos alvos farmacêuticos, descrevendo com o devido relevo os estudos intensivos levados a cabo desde 1930, em Itália pelo investigador, Leornado Santini.
(Continua)