quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Henry David Thoreau

Henry David Thoreau nasceu em 1817, em Concord, povoação do Estado de Massachusetts a uns 30 km a oeste de Boston, e ali faleceu em 1862, vitimado pela tuberculose aos 44 anos. Descendia, pelo lado paterno, de uma família francesa de protestantes refugiados na ilha de Jersey, no Canal da Mancha, desde 1685, após a revogação do édito de Nantes. Involuntariamente, o avô de Henry fora o primeiro a instalar-se na América, em Boston, em 1773, na sequência de um desastre marítimo em que naufragou. Os pais de Thoreau, cultos e pouco dados aos negócios, não eram materialmente ricos. Possuíam no entanto uma pequena fábrica de lápis em Concord, onde Henry trabalhará em diversas ocasiões, encontrando ali o esteio material que, a bem dizer, nunca terá nas suas actividades «intelectuais», mesmo no ensino, que só episodicamente pôde exercer. Tanto o pai como a mãe de Henry, empenhados na acção política abolicionista, o iniciaram no amor pela justiça e pela natureza.
Para os seus contemporâneos, Henry Thoreau não passava de um discípulo menor do filósofo e seu amigo íntimo Ralph Waldo Emerson, mais velho catorze anos e autor já então muito conhecido. Cem anos depois, porém, Thoreau passou a ser considerado um dos gigantes da literatura norte-americana, admitindo-se universalmente que fala muito mais ao nosso tempo do que pôde falar ao seu. A sua vasta obra, em grande parte postumamente publicada, continua a mostrar-se influente em domínios diversos: no amor pelas belezas naturais, na sátira de costumes, na oposição às instituições estatais, na protecção e conservação da natureza e seus recursos, na estilística do ensaísmo moderno.
No dia 4 de Julho de 1845, aos 27 anos, enquanto a maioria dos estadunidenses agitava bandeirinhas por entre o ruído do fogo de artifício e dos sinos, Thoreau celebrava o Dia da Independência à sua própria maneira, inaugurando, com um grupo de amigos (entre os quais Emerson), a cabana que construíra junto ao Walden, um lago glaciar situado a uns 3 km de Concord.
Dera esse passo com vista a pôr em prática as suas exigências de uma vida simples e despojada, graças à qual, como depois há-de verificar, lhe será possível trabalhar, no máximo, seis semanas por ano. Thoreau, que levava muito a sério o lema «um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir», confirmava assim o que declarara alto e bom som aquando da sua licenciatura na Universidade de Harvard, invertendo as prescrições bíblicas: que o homem deveria trabalhar um dia por semana e descansar nos outros seis  ainda que este «descanso», no caso de Thoreau, deva ser matizado, visto ele o dedicar a escrever e a observar apaixonadamente a natureza. Um dos seus objectivos ao ir morar para os bosques era escrever uma obra sobre a viagem que em 1839 empreendera com seu irmão John pelos rios Concord e Merrimack. E, curiosamente, na cabana escreverá A Week on the Concord and Merrimack Rivers e Walden, os dois únicos livros que pôde publicar em vida. Curiosamente também, fez isso na altura da grande migração que levou à chamada «conquista do Oeste», sem esta o atrair. Thoreau, de facto, compreendera que necessitava de algo mais vital do que mudar de geografia: impunha-se-lhe modificar o seu modo de vida.
Walden tem origem numa palestra que Thoreau faz em Fevereiro de 1846, no Liceu de Concord, sobre a obra de Thomas Carlyle. Embora desperte interesse, não era aquilo que os seus conterrâneos esperavam ouvir. O que eles queriam saber era outra coisa: por que razão um licenciado da Universidade pusera de parte a vida convencional e fora viver para uma cabana nos bosques. Thoreau começa então a escrever para outras conferências; a primeira só a proferirá um ano depois, em Fevereiro de 1847, intitulando-a «História de Mim Mesmo», parte da qual deu depois o primeiro capítulo de Walden. As reacções favoráveis a estas palestras levam-no posteriormente a dar-lhes forma mais elaborada e a concebê-las como livro. Conclui esse manuscrito em Setembro de 1847, mas só em 1854 aceita publicá-lo, num dos mais reputados editores de Boston, devido às muitas revisões (sete, ao todo) a que obstinadamente decidira proceder.
A recepção que acolhe este seu segundo livro é melhor do que a do primeiro, A Week... (1848), cuja edição quase completa acabaria por lhe ser entregue em casa pelo editor; mas para uma obra que no século XX se tornará um clássico da literatura norte-americana o interesse da crítica e do público mostra-se então parco: a edição inicial, de 2000 exemplares, levará três anos a esgotar. Podemos dizer, naturalmente, que teve destino semelhante ao Moby Dick (1851) de Melville e às Leaves of Grass (1855) de Whitman, que só gerações posteriores souberam ler.
O lago Walden e os seus bosques irão ser para Thoreau uma lição essencial, apreendendo ele ali que a arte de escrever e a arte de viver são inseparáveis. Walden, de facto, é mais do que o simples relato de uma vida nos bosques. A prosa de Thoreau evoca a natureza sem sentimentalismos e sem distorcer o mundo natural. O individualista transcendentalista que nesta narrativa emerge reve-la-se sedutor e convincente porque os vívidos pormenores colhidos nos bosques, no lago e nas estações do ano são empregados como elementos simbólicos destinados a validar a sua visão de uma vida espiritual alicerçada na natureza.
Com efeito, os factos da natureza constituíam para Thoreau uma linguagem. Foi com esta que pôde edificar um mundo espiritual, cuidadosamente reconstruído em Walden, «transformando» num só ano os dois anos que lá passou, de modo a seguir, na narrativa, o ciclo natural das quatro estações.
Para a elaboração de Walden concorreram diversas influências. A primeira terá sido a de Emerson. Thoreau construiu a célebre cabana em terras que o seu amigo adquirira para impedir ( já então!) a destruição da flora e da fauna pelos activistas do lucro, mas também edificou o seu livro em muito do trabalho de base feito por Emerson, sobretudo na sua obra fundamental, Nature, de 1836. Outras fontes importantes foram os clássicos greco-latinos, a espiritualista literatura oriental, então pouco conhecida, os relatos de viagens e a cultura dos nativos americanos, ou Índios, a que Thoreau se dedicará profundamente.
Na realidade, a singular decisão de Thoreau tem por base uma dissidência, rejeitando ele o materialismo de escravos já então visível no comércio, na indústria, na tecnologia, em suma, no progresso material que posteriormente irá tornar os Estados Unidos a mais notória potência estatal do globo.
A crítica da emergente sociedade industrial que Thoreau exprime de modo visionário, ao apoiar-se nos poderes da natureza, era partilhada por outros indivíduos nos Estados Unidos, em especial pela eclética corrente, em que ele se integra, que ficou conhecida pelo nome de Transcendentalismo. Este movimento de ideias, oriundo da Europa, centrou-se, nos E.U.A., na Nova Inglaterra (e particularmente em Concord), e foi activo sobretudo entre 1830 e 1850. Teve como seu mais célebre mentor Ralph Waldo Emerson, congregando uma plêiade de indivíduos que abordaram todos os domínios da vida social, da educação ao regime prisional e à pena de morte, da pobreza ao casamento e à economia doméstica, dos direitos da mulher à paz e à escravatura. Mas as suas actividades principais foram sempre formas muito pessoais de expressão: «Discutiam, escreviam e viviam as suas ideias em vez de inventarem máquinas, criarem empresas comerciais ou introduzirem legislação.» (Michael Meyer) Uns exprimiam-se através do Clube Transcendental (1836-40) ou da revista trimestral The Dial (1840-44), animada por Emerson e onde Thoreau publicou os seus primeiros ensaios e poemas, outros fundavam efémeras comunidades utópicas como a Brook Farm (1841-47) ou a Fruitlands (1843-44).
Mas, sobretudo, a corrente transcendentalista constituía uma reacção à falta de integridade notória na vida americana, e é nisto que vemos Thoreau mais presente. Era parte dum impulso mais vasto com vista a reformas substanciais. O que atrai Thoreau no transcendentalismo não é o activismo social, é o desejo e a necessidade de cada pessoa se cultivar. Ele, aliás, não encarava com bons olhos os reformadores, propondo-lhes sempre que examinassem as suas próprias existências antes de se pronunciarem sobre as dos outros. É certo que em Walden o autor se expõe como exemplo de uma possível vida vivida «com simplicidade e inteligência»; mas longe dele prescrever um qualquer programa. Segundo Thoreau, só a disciplina individual, o crescimento intelectual e a evolução espiritual podiam constituir métodos para uma transformação em profundidade, não requerendo esta membros inscritos ou convenções. Porque, para Thoreau, a verdadeira transformação é pessoal, interior, totalmente individual, correspondendo à descoberta da divindade em cada pessoa como elemento indissociável da natureza.

Júlio Henriques

Bibliografia:
1.    Walter Harding, The Days of Henry Thoreau, Knopf, Nova Iorque, 1967
2.    Michael Meyer, Introdução a Walden and Civil Disobedience, The Penguin American Library, 1983

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Desculpas

Com falta de tempo, vou começar a colocar as minhas leituras sobre a  Natureza, tentarei apresentar a bibliografia, o livro e os post necessários com excertos do livro

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Requiem por um choupo

Populus Nigra, cultivar italica no Parque das Nações - Lisboa
Era uma cidade com aromas de viajem,
Aquela onde um dia fui criança,
Esta noite estrangularam outra árvore habituada
A ver-me passar, e ninguém se importou com o assunto.
E eu que varri muitas folhas derramadas dessa farta
cabeleira num Outono já distante estremeci
com o ruído seco do velho choupo a morrer.
Aconselharam-me a ficar calado:Não há tempo para escutar
canções de melros entre ramagens.
Mas sou teimoso!Ridículo é aceitar que o alcatrão
vença e os anestesiados se dirijam cada vez mais velozes
para a sua verdade infeliz!
Então peguei no meu caderno de emoções
e escrevi com uma lágrima de raiva:
Quando a cidade não ama
As suas árvores, que medalha
deverá um Poeta pôr no peito
dos que a governam?         

  Luís Filipe Maçarico, in "A Essência"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Aranhas e cheias

Nas áreas afetadas pelas cheias (KN Shah, próximo de Dadu, na província paquistanesa de Sindh). O avanço das cheias foi muito lento, e as aranhas tiveram tempo de subir às árvores, o tempo das cheias também foi superior ao normal, as aranhas ficaram.
Na zona não há lembrança de ter tal ter acontecido.
O número de mosquitos decresceu bastante e o risco da malária também.

O facto de não haver memória viva (apx 75 anos) ou memória escrita (apx 5000 anos) não é nada comparado com a idade da terra, a questão é cada vez mais surgirem fenómenos extremos
como consequência de registos climáticos novos.

Foto de 7 de dezembro de 2010 retirada de Scenes From Pakistan

O que não consigo escrever nem dizer


Depois das vacas loucas, das galinhas com nitrofurano na corneta e dos porcos engripados, eis-nos perante mais uma comédia irresponsável: a dos pepinos espanhóis que afinal são rebentos de soja alemães.
O cagaço colectivo no seio desse po(l)vo estranho que dá pelo nome de “União Europeia” dá-se às mil maravilhas no húmus do obscurantismo. O consumidor médio, desinformado, susceptível e vulnerável, ingressa logo na pepinada e embarca sem pensar na histeria euromentirosa.
Tenho algumas coisas a dizer sobre isto. Uma: vacas loucas, sempre as houve – basta ir a uma casa de alterne. Outra: galinhas estúpidas também – basta verificar o número de abstencionistas nas passadas eleições legislativas. Estoutra: porcos ranhosos é redundância – basta apreciar os barões e os tubarões dos famigerados “mercados” financeiros internacionais.
Agora, quem não tem culpa é o desgraçado do produtor do fálico pepino e do testicular tomate. A irresponsabilidade dos arautos da bactéria atinge foros de criminalidade. Sensacionalismos deste calibre podem servir para aumentar a publicidade no intervalo dos telejornais, mas a mim não me convencem nem um bocadinho.
Eu sei por que motivo esta historieta pepineira veio ao de cima: é porque o futebol está de férias. Como é preciso manter-nos bovinizados, nada como uma manhosa conspiração multi-sanitária à escala teutónica.
Quando é que chega o dia em que os vulgares produtores e os ordinários consumidores deixarão de ser encarados como cifras FMÍsticas ou como larvas acéfalas tão facilmente esmagáveis pelo Banco Central Europeu?
Quando é que voltamos a ser pessoas? Não somos fungos. Não somos nódoas. Não somos caracóis. Não somos fardos de palha. Somos os que vieram depois das duas guerras mundiais. Somos os tolinhos da “democracia”. E seremos nada enquanto não quisermos ser tudo.

É por isso que sei muito bem, mas não digo, em que sítio do corpo é que lhes mandava meter o pepino.
in "Ribatejo" Rosário Breve, Daniel Abrunheiro, Pepinada