terça-feira, 9 de maio de 2006

A Viagem dos coentros (1)

O coentro (Coriandrum sativum, L.) é uma pequena erva aromática, da família das umbelíferas que praticamente toda a gente conhece, utiliza no mais variados pratos e que qualquer quintal tem sempre um canto onde se plantam.
É uma planta que tem acompanhado o homem através de toda a civilização.

Coriandrum1.jpg

O nome dessa planta tem origem grega "koriandron", que significa percevejo (Theophrastus spp.).e do latim “sativum” que quer dizer “o que é semeado”

Em termos históricos existe muita informação dispersa, mas tornam os coentros uma das espécies actuais com maiores referências históricas. A origem da espécie é genericamente considerada como sendo Costa do Mediterrâneo (Sul da Europa, Oriente Médio e África do Norte), mas...

folha_coentro.jpg

citando algumas referências históricas

- A descoberta de frutos de coentros na gruta de Nahal Hemar em Israel. A idade destes frutos foi estimada em 8000

- Alguns escritos sânscritos, falam da cultura de coentros (‘dhanayaka’ ou ‘kusthumbari’)
na antiga Índia Há aproximadamente 7000 anos, mas existem poucas plantas fósseis que sustentem estes textos.

- A biblioteca do rei assírio Ashurbanipal do 7sec AC contém documentos relativos ao cultivo de coentros.


- Foram encontrados também no Egipto muslin indiano, algodão e coentros, com possível proveniência da Índia, estes achadso estima-se ser do ano 3000 AC

Coriandrum2.jpg

- No Egipto, no reino de Ptolemy III (Ptolemy Euergetes), (246–221 AC) existe um relato de um marinheiro indiano encontrado no Mar Vermelho e dentro de trocas estabelecidas entre egípcios e indianos, focam-se sementes de coentros

- Um papiro de 1550 AC cita os coentros como planta medicinal

- No túmulo de Tutankhamon foram encontradas sementes de coentros

- São citados duas vezes na Bíblia,
no Livro do Êxodo 16:31 “A casa de Israel deu-lhe o nome de maná. Era como semente de coentro; era branco, e tinha o sabor de bolos de mel.”
E no Livro dos Números 11,4-9 E era o maná como a semente do coentro, e a sua aparência como a aparência de bdélio.

-Na China , os coentros são mencionados como um vegetal num livro sobre agricultura do sec. V, usando aoalavra persa para o designar, sugerindo que foi introduzido na China através desta área


- Plínio (23-79 DC) foi o primeiro a dar-lhe o nome coriadum.

( continua...)

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Albano Martins

Pequenas coisas

Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Aromáticas e medicinais

Um a escrita solta, um desabafo, depois de andar a ver blogs a falarem de ervas aromáticas

Interesso-me também muito por plantas aromáticas, ditas medicinais. Pena que o seu estudo não se aprofunde mais.

E quando digo aprofunde, é mesmo no sentido lato. Para mim falta uma variável importante nas ervas medicinais.

O princípio é simples, a verdade duma planta, não é a flor, nem a folha, nem a raiz, a verdade duma planta é a terra, onde ela cresce, em função dela as suas características podem diferir. Uma laranjeira só dá laranjas doces se, além da sua qualidade, tiver um solo que proporcione o bom crescimento dos seus frutos.

Nas plantas medicinais falta saber a concentração, que um determinado solo, gera em princípio activo na planta.

O teor ou percentagem de químicos, que o funcho dos Açores, do Alentejo ou do Minho é diferente e o seu efeito no corpo humano também pode variar.

Um exemplo típico dessa diferença é o tomilho, chamada planta polimorfa (várias formas), o óleo essencial é o timol, mas em função da característica do solo em que ele é plantado, até o seu cheiro é diferente. No caso de Portugal existe uma variedade de thymus, na zona da Beira Baixa que se chama serpão ou sarpão, tem um cheiro característico, diferente do tomilho, mas tentem trazer um pé de lá como eu, plantem na terra e esperem um ano, O aroma transforma-se completamente e passa a cheirar a tomilho, ou entre este e o tomilho-limão, mas nada que se pareça com o serpão.

Agora se trouxerem um saco de terra da Beira Baixa, aí para os lados de Castelo Branco, plantarem-no num vaso e forem acrescentando terra da mesma origem, o aroma mantêm-se.

Embora acredite na essência do princípio das plantas medicinais, mas não com um chá por dia (embora aqui também haja casos e casos), porque a maior parte das vezes a concentração é mínima e é preciso alguma continuidade para se ver os efeitos, existe falta de estudo que dê informação sobre a concentração dos químicos que originam o(s) princípio(s) activos de cada planta.

Já agora quando alguma médica vos disser que qualquer remédio à base de uma planta é um plancebo (substância sem efeito), como aconteceu comigo, perguntem se quer tomar um chá de cicuta.

terça-feira, 21 de março de 2006

Como se come o fruto da Costela de Adão




aqui tinha falado na Monstera deliciosa Liebm., da família das Araceae, conhecida em Portugal por costela de Adão.Na altura perguntaram-me como se comia o fruto, segue uma pequena explicação


Aqui o fruto inteiro, este ano demorou três semanas a amadurecer, depois de colhido, tem-se que esperar que a cobertura verde se solte naturalmente como se vê na figura a seguir


Com a mão retira-se a capa verde composta por pequenos hexágonos, não se deve forçar, se não saem facilmente é porque a polpa debaixo ainda não está madura.


E finalmente com um garfo come-se a polpa, existem umas pequenas lascas pretas, que se o fruto estiver maduro não afectam nada. Se o fruto estiver verde, estão duras e dão uma sensação de picante. A razão do garfo é que, com ele consegue-se retirar a polpa e deixar as lascas residuais no "caroço". Se quiserem exprimentar à dentada também dá.


Por fim deixa-se o fruto com a "casca" que não saiu, e espera-se que ela se solte, mais um ou dois dias



Bom apetite

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

A. Lobo Antunes


Poema do livrinho de poemas de ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Um homem com gripe.
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão-de-ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
Posted by afm7 at 09:49 PM | Comentários: (0)